"E, nos murmúrios do vento, vão-se os meus silêncios"" (Sonya Azevedo)

 

domingo, 23 de outubro de 2016

Andorinha Desgarrada


Já fui andorinha desgarrada
Solitária na imensidão do nada...

Já fui estrela cadente
Que se lança consciente
A um sonho,
Único talvez,
A descobrir depois
Que, em verdade,
Perdeu a vez,
Perdeu outros
Que o tempo não refez.

Já fui rio
Deslizando suave
A percorrer caminhos...
Já fui corredeiras
De pressa inconsciente
Levando beiras
A navegar
Por rumos diferentes.

Já fui bambu
Vergando para os lados
Sem, contudo, perder
O prumo, o equilíbrio,
Em meio aos vendavais.

E quando bambu
Pude sentir
Quão forte eram as mi'as raízes
E quão ereto
Ascendia-me em haste
Em busca do infinito.

Então vi as cadentes
Destrançando seus cabelos
Fazendo-me timoneiro
Nesse rumo de cristal
Onde o Porto é único,
Onde a Paz
É tão somente
Os braços de Deus!

(Sonya Azevedo)

domingo, 18 de setembro de 2016

O grafite


Tão negros se vão
Pelos cirros
Das folhas
Em minhas mãos.

Voam...
Vão-se em própria dança
Bailado rebuscado
Em busca de bonança.

Altivo, elegante,
Já te cobristes de negro.
Hoje te integras
Às cores, aos corantes.

Nos dedos de uma criança
Fazes-te em ensaios.
Ensaios de sonhos
E de esperança!

Nos dedos de um poeta
Deformados pela artrite
És tão somente
Teu adorado grafite.

(Sonya Azevedo)

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Perdidas gaivotas


Barqueiro, só tu que não te decides
Se queres ser da vida ou da morte.
Levas sonhos, todo tipo de sorte,
Mas pelo amor tu não te decides.

Ao ver tuas velas singrarem sem rumo,
Pensara ser as perdidas gaivotas
Que se vão ao infinito sem rota.
Assim fora o meu pensar, eu presumo.

Vais a esmo num céu de vendaval,
Sem eira nem beira, sem nem saber
O que tanto buscar, tanto querer...
Vagas sem esperança, sem ideal.

Mas, nalgum cais desse imenso oceano,
Alguém te aguarda pleno de ternura,
De amor e findará esta aventura
Somando ao tempo, a calmaria, em anos.

E, assim, ao aportar teu coração
No cais sagrado de um grande amor,
Saberás não haver navegar em vão
Nem nada mais a te causar temor.

(Sonya Azevedo)

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

No meio do nada - Feliz dia dos Pais


Sinos badalam em longínqua torre
De uma capela no meio do nada
Onde o tempo, cansado, faz parada
E o cervo trôpego, da sombra, corre...

Lá onde os verdes são de vários tons,
Onde estações são bem definidas,
Onde a chuva deixa as rochas brunidas
E a bicharada faz-se em guarda aos sons...

Lá onde o mais próximo é distante,
Onde só os pássaros sabem do pranto
E silenciam, em respeito, o seu canto,
A solidão é dor itinerante.

Lá, no meio do nada, acende-se u'a vela
Quando, a lua se perfuma a deitar,
Ao sol inda há devaneios a sonhar,
E, a Aurora vem a apagar as estrelas...

Cedo, tão cedo, e o homem já está de pé.
Na imensidão silenciosa do nada,
Ele e Deus, e a solidão sanada,
Dão-se as mãos em exato ato de fé.

(Sonya Azevedo)

A minha homenagem pelo dia dos pais ao 
maior de todos os pais:
O Pai Eterno.
Luz e paz.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Sabor de Saudade



Ao vir soprar as folhas de outono,
O vento me traz a doce saudade
Dos teus beijos, sabor que eu relaciono
Com frutas vermelhas, suas variedades.

Então corro a degustar u'a cereja,
Suave maciez tal teus lábios carmim...
Ouço sinos badalarem na igreja
Perfumando o ar com o olor de alecrim.

E ao acender a estrela vespertina,
Quando se cala o vozeio da passarada,
Hora maior que a saudade atina,
Ouço no silêncio tua voz adorada.

O teu cheiro de champanhe e morango
Caminha comigo por toda a casa,
Faz-me querer dançar o último tango,
Reter teu calor nesse peito que abrasa.

O relógio toca as horas que passam;
Vem então a certeza da tua ausência
Nesses versos tantos que ora se lassam
E tiram do meu canto, sua cadência.

Quieto-me, então, a escrever-te u'a poesia
Descrevendo essa imensa saudade
Que vagueia em meus sonhos pelos dias
Em que te busco e a tal... felicidade. 

(Sonya Azevedo)

segunda-feira, 18 de julho de 2016

A Moça na Janela



Vejo-te sempre curvada à janela
Com o olhar perdido em alto mar
Tal se alguém acenasse a ti chamar
Ou se, aos astros, te fosses, em sentinela.

Teus negros cabelos mesclam-se à noite
Como fora os grafites de um poeta
Que espera pelo tempo, na ampulheta 
Da vida, a quebrar os seus limites.

E ficas por tão indeterminado
Tempo, largando aos céus os teus pensares
Ao anjo que levará os teus sentires
Ao grande amor por ti abençoado.

 Nalgum lugar, sob os olhos da noite,
Olhos que vêem através do silêncio,
Vão-se, os versos ao poeta, em balbucio
Das marés cansadas pelo pernoite.

De súbito, uma estrela resplende...
Os teus olhos, como magia, sorriem;
O poeta, a que os versos se recriem,
À chama ardente do amor, ele acende.

(Sonya Azevedo)

sábado, 2 de julho de 2016

A Carta


Imagino-te com as tuas alvas asas
Cortando o azul do sul ao norte...
Não pranteias ao vento que vem forte,
Nem recobres o negro que desgasta...

Trazes cheiros dos antigos amores,
Os sorrisos das mais ternas lembranças;
Vens com os adeuses, co' as esperanças,
Trazes as alegrias, também as dores...

Trazes as saudades do além cais,
Da imensa distância que encobre os mares...
Trazes à alma os sacros calmares,
E, aos sonhos, a barca que atracas.

E, ao tempo? Ah! A esse também te curvas,
Amarelas, craquelas... e vozeias
Nas trêmulas mãos de quem te anseia
A aclarar dos olhos, as águas turvas...

Pousando no destino pactário,
Despe-se da gasta veste selada,
Liberta as palavras, a papelada,
E te entregas ao destinatário.

(Sonya Azevedo)


domingo, 12 de junho de 2016

Pastor de Palavras



Assim, numa relva branca de poema,
Eu pastoreio as muitas palavras,
Enquanto minhas mãos, a lira, lavra,
No alto campo, um sonho em alfazemas.

Tento, em verdes folhas, ver os grafemas
Que, de tão miúdos, se vão pela relva...
Presos ao tronco, floreiam, tais madressilvas
Que o vento carrega, os tristes fonemas.

E como uma revoada de andorinhas,
Largam o campo e por sobre as vinhas,
Anuviam os sonhos, seguem ao azul mar.

Mas, em seu tempo, irão retornar
E, ao poeta, palavras irão falar
Que, em canção, as fará, às pastorinhas.

Sonya Azevedo

sábado, 11 de junho de 2016

Por sobre os versos



Por ti, o amor caminha sobre os meus versos.
Desliza sobre ondas... ah! As tuas ondas!
Prende os fios a que a tua face não esconda,
E dá-me teus vales, montes, o universo...

Estrelas reluzem o meu sentir...
Ah! Doce sentir que a lua descobre
Tão logo o céu se faça em tom de cobre
E o sol, lasso, ponha-se a dormir.

O linho que, ao meu corpo, acaricia,
Orvalha-se do teu amor, da tua paz,
Que mesmo ausente, presente se faz,
E, faz-me amar-te, mais e mais, em poesia.

Sonya Azevedo

domingo, 1 de maio de 2016

Flor de Ilusões


Ah! Pudesse eu, ao menos, colher
Dos sonhos, a esplendorosa flor,
Que brota em um canto escuro, sem cor,
Que, por tão bela, não a quero esquecer.

Só temo que ela venha a padecer
Minguando em sua fina haste, sem amor,
Deixando em meu peito essa dor,
Imensa dor, que eu só quero esquecer.

O mar que há em mim e sai por meus olhos,
Vem doutra flor, a flor d'água que encobre
As dores, cria dos meus tristes restolhos.

Quisera eu acolher em alvos folhos,
De todas essas flores, a mais nobre:
A do amor que habita em meus refolhos.

Sonya Azevedo

quinta-feira, 21 de abril de 2016

O Nada



Vazio...
O nada e este coração solitário
Que permeiam os vales,
Os muitos luares...

Nada...
Nada além deste coração solitário
Que vagueia nas estrelas, 
Na dança morta do riacho,
Vagaroso,
Temeroso...

Nada...
É só o silêncio do amanhecer
Na harpa dos cabelos teus...

Nada...
O nada e estes olhos meus que respiram
O sussurro das marés;
E buscam nas várias vagas,
Nos tantos cais,
Pelo sol dos braços teus...

(Sonya Azevedo)



sábado, 2 de abril de 2016

O Pássaro e a Eternidade



Esse belo pássaro que me espia
Pela janela, o tempo, se diz ser.
Mas se aquieta como se, esquecer,
De si mesmo, quisesse. Então, adia

O seu voo, em parco intervalo
De segundos, que lhe parece ser
A eternidade. Isso, até ele, quer ter.
Nada nesse átimo sofre algum abalo.

Tudo para; só o silêncio se faz.
O vento, por respeito, se emudece...
Não sopra, não assovia, só se enternece
Co' o pássaro e a nostalgia que ele traz.

E, bem fundo, penetro, em seu olhar...
Sinto que ele também já não quer voar,
Só quer uma sacada para descansar,
Deixar correr o rio rumo ao mar,
Do violão ouvir u'a canção de ninar.

(Sonya Azevedo)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Rosa dos Ventos


Pinto-me com as cores da verdade
Que me chegam dos pontos cardeais.
Quatro pontos, quatro cores cruciais,
Que me dizem da tal criatividade.

Três brancas linhas abaixo do olhar
Diz-me da Verdade e do Seu saber
Ensina-me a ver e a tudo agradecer.
É a cor do Norte.

Única linha a descer ao nariz
Pinto-a de rubro, é guia nos meus caminhos,
É a mi'a fé, faca que me corta os espinhos.
É a cor do Sul.

Raio amarelo no centro da testa
Faz-me em Águia co' energia do Trovão,
Vou-me aos astros trazer a inspiração.
É a cor do Leste.

Abaixo do branco, u'a gota negra.
Cor da noite, do luto, da saudade,
Onde o silêncio desnuda a verdade.
É a cor do Oeste.

Meus cabelos, dou rajadas de azul.
Assim, lembro-me sempre a mi'a origem,
Dos anjos que, a mi'a vida, dirigem.
É a cor da Vida.

Meus pés, de marrom, com mui zelo, os pinto. 
Diz-me do corpo, do barro que é feito,
Do tempo fugaz onde tudo é desfeito.
É a cor da Morte.

Por fim, pinto-me inteiramente de verde.
No fundo de mim, onde olhar não alcança,
Onde hão meus natos sentires, a esperança,
A Natureza Divina que não se perde.
É a cor de Deus.

Sonya Azevedo
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